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1 07/02/2019 17:15

De logo, explico que o título acima nada tem a ver com a bela e conceituada obra a nós legada pelo grande advogado Raymundo Faoro, explicando a formação do patronato brasileiro. Só o título, pois se formos buscar uma comparação entre os políticos brasileiros, especialmente os encastelados no Senado, veremos que tem tudo a ver, notadamente quanto aos crescentes desmandos e a apropriação do Brasil, esquema que vem sendo desmontado aos poucos.

Mesmo tendo vivenciado toda a transformação política por que passa o país, os vetustos senhores detentores do poder senatorial não acreditarão que a modernidade política chegasse ao sombrio recinto. E chegou com tudo, após os avisos dados pelas vozes claras (antes roucas) das ruas, com uma renovação nunca antes vistas nesta terra, com uma mudança de 85% nas 54 cadeiras em disputa nesta eleição, ou de 61 % se considerarmos os que buscaram os governos estaduais.

E essa brusca mudança desnudou os “donos do poder” naquela Casa chamada de Câmara Alta, ou Revisora, cujos 81 senhores têm a obrigação de representar os Estados-membros (3 para cada um). Entre os que ainda ficaram encastelados naquela Casa que já foi respeitada nos tempos de Ruy Barbosa, coroneizinhos nordestinos (a escória, garanto) tentaram manter o poder de mando e jugo, a exemplo do antes todo-poderoso Renan Calheiros e sua entourage.

Infelizmente, espero que esse tenha sido o pior momento do Senado, registrado de forma mais negativa possível para a história republicana brasileira, haja vista os momentos hilariantes promovidos pelo grupelho que sustentava o status quo anterior. Não previam os vetustos espertalhões, que a renovação se resumiria a apenas de tão somente ao número de senadores, mas de novos políticos que, ao que parece não comungam dos mesmos atrasados princípios da velha política.

Acreditava o senador das Alagoas, Renan Calheiros, lotear, novamente, o Senado entre seus antigos pares, remanescentes de todos os vícios que marcaram as ascensões e longa permanência no poder, geralmente criando e impondo dificuldades com a finalidade de vender facilidades. E desta forma camaleônica Renan Calheiros já tinha iniciado seus contatos com o novo poder executivo, prometendo um rio de leite e uma ribanceira de cuscuz, nordestinamente falando.

E as garantias de facilidade de aprovação dos projetos vitais para a economia e saúde financeira da União como o da Previdência, e até mesmo a proteção ao senador Flávio Bolsonaro (implicado em transações financeiras não explicadas no Coaf), fizeram parte do vistoso pacote. Mas, conforme a voz vindas das ruas, hoje bem representada pelas redes sociais e não a grande imprensa, o projeto sonhado pelo senador Renan Calheiros deu chabu, não vingou.

Nos cálculos do velho senador, que se autodenominava novo Renan, faltou o componente modernidade. E a modernidade que me refiro são seus novos pares, pouco acostumados ao ambiente vetusto e discreto do Senado. Antes que alguém retruque, faço aqui uma ressalva, de que o clima no Senado não vem sendo ameno, haja vista o comportamento dos senhores senadores, em extrapolar seus comportamentos, a exemplo do próprio candidato Renan, já tirado da cadeira presidencial por atos não republicanos.

Mas o que é isso para um coronelzinho das Alagoas conhecedor de todas as artimanhas políticas e que quase sempre manipulou o Senado. Como disse Raymundo Faoro: “Ao lado do coronel legalmente sagrado, prosperou o ‘coronel tradicional’, também chefe político e senhor dos meios capazes de sustentar o estilo de vida de sua posição”. Em outras palavras, camaleonicamente, para ele o que interessa estar com os dois pés no poder. Rei morto, rei posto. E viva o novo rei!

E na conclusão de “Os Donos do Poder”, o mestre Raymundo Faoro diz que “O conteúdo do Estado molda a fisionomia do chefe do governo, gerado e limitado pelo quadro que o cerca. O rei, o imperador, o presidente não desempenham apenas o papel de primeiro magistrado, comandante do estado-maior de domínio…À medida que o estamento se desaristocratiza e se burocratiza, apura-se o sistema monocrático, com o retraimento dos colégios de poder…o chefe provê, tutela os interesses particulares, concede benefícios e incentivos, distribui cargos, dele se espera que faça justiça, sem atenção às normas objetivas e impessoais…”

Nada mais que isso acontece no Senado, com a distribuição de benesses aos apaniguados e os rigores da lei aos inimigos. Só que, desta vez, a turma de Renan Calheiros foi reduzida pelos votos, de um povo ávido por mudanças que não se sabe se ainda virão e de forma positiva. Pior do que a emenda ficou o soneto, com a renúncia da candidatura de Renan, deixando seus apoiadores – os amigos do rei – totalmente desprotegidos, numa verdadeira sinuca de bico, que só o tempo poderá apagar as mágoas.

E, para finalizar, não poderia deixar de citar o ilustrado Victor Nunes Leal, na conclusão do livro “Coronelismo, enxada e voto”, atualíssimo, que marca: “O coronelismo pressupõe, ao contrário, a decadência do poder privado e funciona como processo de conservação do seu conteúdo residual. Chegamos, assim, ao ponto que nos parece nuclear para conceituação do coronelismo: este sistema político é dominado por uma relação de compromisso entre o poder privado decadente e o poder público fortalecido”.

Nunca é por demais teimosia ou utopia contribuirmos e esperarmos que o coronelismo seja varrido da nossa política nacional. Não cantemos loas pela derrota de Renan Calheiros, de profundo conhecimento no Senado, com centenas de devedores naquela Casa e na política, pois soube levar o coronelismo dos municípios alagoanos para Brasília. Por falar na capital federal, lembremos nós que na Câmara Federal prevaleceu o coronelismo na recondução de Rodrigo Maia.

Também seria muita bondade para um pobre marques. Continuemos vigilantes.

* Radialista, jornalista e advogado


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 Penso Assim - por Walmir Rosário 






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