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1 05/05/2020 11:07

O ditado “se vira nos trinta”, que ficou famoso por ter sido um quadro do programa Fausto Silva (Faustão), na Rede Globo, explicar muito bem o árduo trabalho de editar e imprimir um jornal no interior. Pra começo de conversa, os pomposos títulos profissionais – quando existem – servem apenas para engrossar o expediente. O editor, por exemplo, tinha e tem que ser repórter, apurador, copy desk, revisor, diagramador, vendedor, e como não poderia deixar de ser: editor.

E os jornais têm os seus colaboradores – uma verdadeira mão na roda – que trazem informações e artigos, publicidade e por aí afora. Não foi diferente em Canavieiras naquele 25 de maio de 1968, Dia da Cidade, quando circulou pela primeira vez o Tabu. E já baixou “saravando”, dando o que falar, como queria seu editor por 50 anos, Tyrone Perrucho, admirador do ditado “falem mal, mas falem de mim”.

Em 25 de abril de 2018, conforme tinha prometido Tyrone, o Tabu circulou pela última vez em papel. Reclamava do cansaço de anos de trabalho e pretendia se libertar de vez. E tinha razão, afinal, estava aposentado da antiga Divisão de Comunicação da Ceplac há 24 anos e ainda batendo o ponto no Tabu. Em tempo de serviço só perdia para o ex-técnico do glorioso Sport Club Ypiranga de Camacan, Antônio Ribeiro de Castro (Santinho), que permaneceu no cargo por mais de 53 anos, sempre prestigiado pela direção e torcida.

Passados dois longos anos sem circular, os saudosistas arranchados no Grupo “Apaixonados por Canavieiras”, promotor do resgate da história da cidade, resolveram fazer uma live no Facebook para lembrar e tirar a limpo algumas histórias contadas pelo Tabu. Para começar, recordaram de vários arranca-rabos da política e algumas indiscrições, como a de prefeitos que diziam renegar o jornal, embora constantemente tenham sido flagrados lendo-o às escondidas.

Concebido para exercer o jornalismo paroquiano em 90 % das notícias, se algum evento nacional ou estadual fosse digno de merecimento seria incluído nas páginas de o Tabu, caso contrário Canavieiras, Santa Luzia, Camacã, quiçá Ilhéus e Itabuna seriam prestigiadas em suas páginas. Editorias variadas, seu conteúdo era o fato, devidamente esmiuçado na figura do “quem”, e que seria o alvo de polêmicas mil.

Uma das editorias mais temidas por uns e objeto de chacotas por outros, Calhau ocupava uma página inteira de notinhas políticas e mundanas, elaboradas com muito esmero e uma narrativa com mil interpretações nas entrelinhas. Do comportamento de boêmios pelos bares e lupanares até as pesadas publicações do Diário Oficial do Município nada escapava aos olhares do editor do Calhau.

A cada edição quinzenal, a redação do Tabu recebia uma comissão de pessoas indignadas com a ultrajante notinha. Não raro, era um padre que pulava o muro, um rapazote que aparecia com trejeitos, uma invasão conjugal, um deslise na tesouraria municipal. E não raras vezes essas interpelações eram feitas nas ruas, em bares e outros lugares públicos, como demonstração de força por ameaças, embora todas teriam respostas publicadas no próximo Calhau com o devido estilo ferino do editor.

Não disse ainda, o que farei a seguir, que o Tabu nasceu da vontade de alguns jovens canavieirenses inquietos, como Tyrone Perrucho, e uns funcionários do Banco do Brasil (Durval França Filho – hoje historiador, Antônio Tolentino, Raimundo Tedesco, dentre outros, que geralmente assinavam matérias. As mais picantes não levava o nome dos autores, o que gerava dúvidas atrozes nos leitores.

O cinismo era uma marca registrada dessa turma, que a cada questionamento sobre a autoria colocava a culpa – se é que tinha – em outro, criando mais celeuma sobre o verdadeiro pai da criança. Tanto foi assim que o maior número de perguntas enviadas durante a live realizada pelo “Apaixonados por Canavieiras” foi sobre a autoria do Calhau, finalmente confessada em público pelo próprio Tyrone, rompendo os 50 anos de anonimato.

Certa feita, por falta de notícias alvissareiras, o ainda jornalista Tyrone nomeia uma comissão de alto nível para analisar o projeto Viva Jaqueira, que pretendia preservar a memória mundana de Canavieiras. Se reunirem em plena segunda-feira pela manhã num bar da cidade, sob o pretexto pesquisar e revigorar os bregas antes existentes na rua da Jaqueira, famosa pela quantidade de lupanares, nos quais somente se adentrava se trajando terno, gravata e chapéu.

Reportagem principal do Tabu, o Viva Jaqueira ocupou a página cinco por inteira, com direito a manchete principal na primeira página. Foi um auê. Uma conhecida senhora da sociedade, moradora da antiga rua da Jaqueira (hoje Barão de Cotegipe) se encheu de coragem e interpelou o jornalista com altivez.

– Quer dizer, seu Tyrone, que o senhor pretende voltar a transformar minha rua num brega, como era antes?

O jornalista desconversou, disse que não era bem assim e escapou de novas cobranças.

Outra inconfidência foi a descoberta da autoria do colunista mundano e autor do horóscopo proibido Carlos de Carvalho, também o mesmo Tyrone Carlos de Carvalho Perrucho.

Em relação às cobranças sobre a volta da circulação de o Tabu, Tyrone Perrucho negou a possibilidade, porém garantiu que em 25 de abril de 2068 promoverá uma festa de arromba para comemorar os 50 anos da decretação da morte do brioso jornal.

Há quem acredite!

Radialista, jornalista e advogado.

 

 


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 Penso Assim - por Walmir Rosário 






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