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28/08/2026 15:30

Brasil ainda cria empregos e não vive uma crise generalizada, mas varejo, empresas endividadas e pequenos negócios enfrentam uma combinação perigosa de juros altos, consumo pressionado, novas regras e aumento dos custos. O problema não está em um único fator — está na soma deles.

O Brasil chega ao segundo semestre de 2026 diante de um cenário econômico que exige mais atenção do que os números gerais do mercado de trabalho podem sugerir.

De um lado, a economia continua gerando empregos. No primeiro semestre, foram criados cerca de 921,6 mil postos formais no país, com mais de 571 mil concentrados no setor de serviços. De outro, justamente um dos segmentos mais importantes para a geração de empregos, o comércio varejista, perdeu 45,9 mil vagas com carteira assinada entre janeiro e junho — o pior resultado para um primeiro semestre desde a pandemia.

Não há, portanto, uma economia brasileira completamente parada. O que existe é algo mais complexo: uma economia que continua funcionando, mas começa a mostrar rachaduras em setores particularmente sensíveis ao crédito caro, ao endividamento das famílias e à mudança no comportamento do consumidor.

E os exemplos estão se acumulando.

A Casas Bahia entrou em recuperação judicial com aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo, anunciou o fechamento de 298 lojas e uma reestruturação que envolveu cerca de 3 mil trabalhadores. As demissões coletivas, porém, foram suspensas pela Justiça do Trabalho enquanto a empresa não negocia os cortes com os sindicatos.

O Grupo Gennius, controlador de marcas como Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, também entrou em recuperação judicial, declarando R$ 265,2 milhões em dívidas. A companhia atribui parte das dificuldades aos efeitos da pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo, ao crescimento do delivery e aos juros elevados.

E há um caso ainda mais emblemático: a Oi teve a falência confirmada pela Justiça do Rio de Janeiro nesta semana, encerrando um longo processo de recuperação judicial iniciado anos atrás. A companhia chegou a acumular mais de R$ 65 bilhões em dívidas.

Seria errado colocar Casas Bahia, Gennius e Oi na mesma conta. São empresas diferentes, com histórias, modelos de negócios e problemas distintos.

Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada:

por que tantas empresas estão precisando reduzir estruturas, renegociar dívidas ou recorrer à Justiça justamente em um momento em que o país ainda apresenta crescimento do emprego?

A resposta passa por um conjunto de fatores.

E é aí que a discussão deixa de ser apenas empresarial e passa a ser econômica.


O varejo está dando um sinal que os números gerais do emprego não mostram

O dado de 45,9 mil vagas eliminadas pelo varejo merece atenção porque revela uma diferença importante entre o desempenho agregado da economia e aquilo que acontece na ponta.

Enquanto serviços criaram 571,9 mil empregos no primeiro semestre, o comércio como um todo registrou saldo negativo de 3,5 mil vagas. No varejo, a perda foi ainda maior.

O problema aparece com força em setores diretamente ligados ao consumo das famílias.

As lojas de roupas e acessórios eliminaram 30,9 mil postos no primeiro semestre. O segmento de calçados perdeu outros 11,3 mil. Supermercados e hipermercados cortaram 5,6 mil vagas.

É uma fotografia importante.

O consumidor brasileiro não deixou simplesmente de comprar. Ele passou a comprar de outra maneira, parcelar menos quando o crédito ficou caro, buscar preços diferentes e utilizar cada vez mais plataformas digitais.

O comércio eletrônico também mudou a estrutura do setor. Uma grande operação digital pode vender para milhares de consumidores sem precisar manter a mesma quantidade de lojas, vendedores e estruturas físicas.

Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias limita a capacidade de assumir novas prestações.

E os juros tornam tudo ainda mais difícil.

Em junho, a taxa média das operações de crédito livre para pessoas físicas chegou a cerca de 64% ao ano, segundo dados do Banco Central citados no levantamento da Folha. No cartão de crédito, a taxa chegou a 97,4% ao ano.

É difícil imaginar que um país consiga manter consumo forte por muito tempo quando uma parte relevante da população precisa escolher entre comprar agora, pagar uma dívida antiga ou simplesmente esperar.


O dinheiro caro não atinge apenas o consumidor

Existe uma consequência menos visível dessa equação, mas que chega rapidamente à economia real.

Quando o consumidor perde capacidade de compra, a empresa vende menos.

Quando vende menos, o faturamento cai e o caixa começa a apertar.

Quando o caixa aperta, a empresa precisa recorrer ao crédito para financiar o capital de giro, pagar fornecedores, manter funcionários e continuar funcionando.

E quando esse crédito está caro, uma parcela cada vez maior da receita deixa de financiar a operação e passa a servir para pagar juros.

É aí que começa o ciclo perverso.

A empresa vende menos, precisa de mais crédito e paga mais caro para obtê-lo. A dívida cresce, a margem diminui e sobra cada vez menos dinheiro para investir, contratar ou modernizar a operação.

Em algum momento, uma dificuldade que inicialmente poderia ser temporária pode se transformar em um problema financeiro estrutural.

Por isso, atribuir o fechamento de uma loja exclusivamente à má gestão empresarial seria simplificar demais a realidade. Da mesma forma, colocar uma recuperação judicial inteira na conta dos juros também seria incorreto.

Empresas cometem erros.

Podem assumir dívidas excessivas, expandir acima de sua capacidade financeira, perder competitividade, não acompanhar mudanças tecnológicas ou demorar para perceber que o comportamento do consumidor mudou.

A gestão importa — e muito.

Mas o ambiente econômico também importa.

Uma empresa altamente endividada pode sobreviver durante anos em um cenário de crédito barato. Quando chega o momento de renovar essa dívida e as novas taxas são muito maiores, a mesma estrutura financeira pode deixar de ser sustentável.

É nesse ponto que juros, consumo, dívida empresarial e política fiscal deixam de ser assuntos separados.

Eles passam a fazer parte da mesma equação.

Se o ambiente econômico mantém o crédito caro por muito tempo, o custo de financiamento aumenta. Se o consumidor também está endividado, as vendas perdem força. Se as vendas perdem força, as empresas têm menos capacidade de gerar caixa. E, com menos caixa, aumenta a dependência do crédito.

O problema é que o crédito caro pode transformar uma empresa que ainda é operacionalmente viável em uma empresa financeiramente sufocada.

É exatamente por isso que a política fiscal brasileira interessa diretamente ao empresário.

Não porque o governo determine sozinho o destino de cada empresa, mas porque a trajetória das contas públicas influencia as condições gerais de financiamento da economia.

Quando o Estado precisa captar grandes volumes de recursos e a dívida continua crescendo, a pressão sobre o mercado financeiro permanece elevada.

E, no fim dessa cadeia, quem precisa de crédito para abrir uma loja, comprar uma máquina, renovar o estoque, ampliar uma fábrica ou simplesmente atravessar um período ruim de vendas também sente a conta.

O problema fiscal, portanto, não termina no balanço do governo.

Ele pode chegar ao balanço da empresa.


O problema começa em Brasília, mas termina no caixa da empresa

O governo federal conseguiu um resultado expressivo na arrecadação.

Em junho, a arrecadação federal alcançou R$ 264,4 bilhões, o maior valor para um mês de junho desde o início da série histórica, em 1995. Em termos reais, o resultado representou crescimento de 7,7% em relação a junho de 2025. No primeiro semestre, a arrecadação chegou a aproximadamente R$ 1,59 trilhão, ou cerca de R$ 1,6 trilhão quando considerados os valores corrigidos pela inflação.

Os números são importantes porque desmontam uma parte da explicação mais simples para o problema fiscal brasileiro: a de que o país precisaria apenas arrecadar mais.

O governo está arrecadando.

E está arrecadando mais.

Mas surge uma pergunta muito mais difícil: esse aumento de receita está sendo suficiente para conter o avanço das despesas, reduzir a necessidade de endividamento e estabilizar a dívida pública?

Os dados disponíveis mostram que, até aqui, não.

A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto. Apenas no primeiro semestre, a relação entre dívida e PIB aumentou 3,3 pontos percentuais.

O dado revela algo que deveria estar no centro da discussão econômica: arrecadar mais não significa, automaticamente, equilibrar as contas.

Quando as despesas crescem em ritmo elevado, uma parte do aumento da arrecadação simplesmente é absorvida pelo próprio crescimento dos gastos. E, quando a receita não acompanha todas as necessidades financeiras do Estado, a diferença precisa ser coberta por dívida.

A dívida, por sua vez, não é apenas um número registrado nos balanços do governo.

Ela tem custo.

E esse custo aparece principalmente nos juros.

No primeiro semestre, os juros nominais contribuíram com aproximadamente 4,9 pontos percentuais para o aumento da relação dívida/PIB, enquanto o crescimento nominal da economia ajudou a reduzir essa relação em cerca de 2,7 pontos.

É uma diferença importante.

A economia cresce e ajuda a diluir o peso da dívida. Mas, quando o custo dos juros cresce em velocidade maior, parte desse efeito positivo é anulada.

Nos 12 meses encerrados em junho, o déficit nominal do setor público chegou a aproximadamente R$ 1,3178 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB.

Esse número ajuda a mostrar por que a discussão fiscal não pode ser reduzida a uma disputa sobre quem quer pagar mais ou menos impostos.

Existe uma conta maior por trás dela.

Quando o Estado precisa financiar uma dívida de aproximadamente R$ 10,8 trilhões e pagar juros elevados para continuar captando recursos, ele está inserido no mesmo mercado financeiro em que empresas precisam buscar dinheiro para investir, ampliar suas operações, comprar equipamentos, renovar estoques ou simplesmente sobreviver a um período de vendas mais fracas.

É aí que a questão fiscal deixa de ser um problema restrito a Brasília.

Ela chega ao empresário.

Chega ao consumidor.

Chega ao trabalhador.

Um governo que precisa captar grandes volumes de recursos compete por financiamento com o setor privado. Em um ambiente de juros elevados, isso pode significar crédito mais caro e menor disposição para assumir riscos.

Para uma grande empresa, o impacto pode ser administrável.

Para uma pequena empresa que precisa de capital de giro para pagar fornecedores, salários e manter as portas abertas, algumas dezenas de pontos percentuais a mais no custo do crédito podem representar a diferença entre atravessar uma crise temporária e entrar em uma espiral de endividamento.

O consumidor também sente esse efeito.

Crédito caro significa prestações maiores. Prestações maiores significam menos consumo. Menos consumo reduz as vendas. Vendas menores pressionam as margens das empresas. Margens menores significam menos espaço para contratar, investir e expandir.

Forma-se, então, uma cadeia que começa nas contas públicas, passa pelo mercado de crédito e termina na economia real.

Por isso, o debate sobre a dívida não deveria ser tratado como uma preocupação exclusiva de economistas ou do mercado financeiro.

A pergunta fundamental é simples:

quanto custa para o Brasil financiar o Estado e quanto desse custo está sendo transferido, direta ou indiretamente, para famílias e empresas?

O aumento da arrecadação pode ajudar a fechar as contas, mas não substitui uma discussão sobre a trajetória das despesas.

Se o país arrecada mais e, ainda assim, continua aumentando sua dívida e pagando uma conta crescente de juros, o problema não está apenas em quanto entra.

Também está em quanto sai, em como sai e, principalmente, em quanto a economia consegue sustentar essa estrutura ao longo do tempo.

É essa equação que precisa ser enfrentada.

Porque arrecadar mais pode aliviar o problema.

Mas, sem controle estrutural das despesas e sem uma trajetória sustentável para a dívida, pode não ser suficiente para resolvê-lo.


O Estado arrecada mais, mas o empresário também paga a conta

Esse talvez seja um dos pontos mais desconfortáveis da discussão. Não basta perguntar quanto o governo arrecadou; é preciso questionar quanto custa financiar o Estado e, principalmente, quem suporta esse custo. O empresário que busca crédito para abrir uma loja, comprar máquinas, renovar equipamentos ou simplesmente atravessar um período de vendas fracas está disputando espaço no mesmo mercado de crédito utilizado para financiar a dívida pública. O consumidor também faz parte dessa equação. Quando o dinheiro fica caro, ele compra menos. Quando as vendas diminuem, o comércio precisa reduzir custos e, em muitos casos, isso pode significar fechamento de unidades, redução de investimentos e cortes de empregos.

É um mecanismo econômico menos visível do que uma alta de imposto, mas nem por isso menos importante. Por isso, o debate fiscal não deveria ficar restrito à disputa entre "mais impostos" e "menos impostos". A questão anterior é saber qual tamanho de Estado a economia brasileira consegue financiar de maneira sustentável. Se as despesas continuam crescendo, existem poucas alternativas: aumentar a arrecadação, ampliar o endividamento, cortar outras despesas ou combinar essas medidas. E nenhuma delas é gratuita. Mais impostos retiram recursos de famílias e empresas; mais dívida aumenta a necessidade de financiamento e pode manter os juros elevados; e cortes de despesas exigem escolhas políticas difíceis. No fim, de uma forma ou de outra, a conta chega à sociedade.


A Reforma Tributária chega em um momento delicado

É nesse cenário que entra outra transformação de grande dimensão: a Reforma Tributária do consumo.

A reforma tem uma justificativa econômica importante. O sistema brasileiro é complexo, fragmentado e caro para empresas que precisam lidar com diferentes regras, tributos e obrigações.

A substituição gradual de tributos pelo IBS e pela CBS pode simplificar processos, reduzir distorções e melhorar a organização do sistema.

Mas existe um detalhe que não pode ser ignorado:

simplificar não significa necessariamente pagar menos.

A transição já começou em 2026. As empresas precisam se adaptar às novas regras e aos documentos fiscais relacionados à CBS e ao IBS. A própria Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS precisaram flexibilizar regras de validação durante o período de adaptação.

Para micro e pequenas empresas, a adaptação também está avançando. A emissão da NFS-e de padrão nacional para ME e EPP optantes pelo Simples Nacional passa a ser obrigatória a partir de 1º de novembro de 2026, enquanto as regras de CBS e IBS para esses contribuintes produzirão efeitos a partir de 2027.

Ou seja, a empresa brasileira está sendo chamada a mudar sistemas, notas fiscais, processos internos, formação de preços e planejamento tributário ao mesmo tempo em que lida com crédito caro e consumidores mais cautelosos.

A reforma pode produzir ganhos importantes no longo prazo.

Mas existe um custo de transição.

E quem já está financeiramente pressionado sente esse custo com mais intensidade.


O fim da 6x1 coloca outro ingrediente nessa equação

E então surge uma das discussões mais sensíveis do atual cenário econômico: o fim da escala 6x1.

O relator da proposta no Senado, Omar Aziz, apresentou parecer favorável à redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial. A proposta ainda precisa avançar no Congresso antes de entrar em vigor.

Do ponto de vista social, o argumento é forte.

Mais tempo de descanso pode significar melhor qualidade de vida, mais convivência familiar, menor desgaste físico e mental e, em determinadas atividades, até ganhos de produtividade. Também pode reduzir a rotatividade e o afastamento de trabalhadores.

Mas uma análise econômica responsável não pode olhar apenas para os benefícios. Precisa perguntar quem pagará a conta da mudança e como cada setor conseguirá absorvê-la.

Se o trabalhador receber o mesmo salário por uma jornada menor, o custo da hora trabalhada aumenta. Isso é uma consequência matemática, independentemente de qualquer posição ideológica sobre a proposta.

A partir daí, cada empresa terá de encontrar uma resposta.

Algumas poderão compensar o custo com aumento de produtividade. Outras poderão investir em tecnologia, reorganizar equipes ou reduzir a rotatividade. Há empresas que poderão contratar mais trabalhadores para manter o mesmo período de funcionamento.

Mas também existe outro lado.

Parte dos negócios pode repassar custos para os preços. Alguns podem reduzir horários de atendimento. Outros podem adiar investimentos ou diminuir o ritmo de contratação.

E existe uma diferença fundamental que não pode ser ignorada: o impacto não será igual para todos.

Um escritório que funciona de segunda a sexta-feira possui uma estrutura completamente diferente de um restaurante que precisa atender durante a noite, de um supermercado aberto sete dias por semana, de um hotel que funciona 24 horas ou de uma pequena empresa que opera com uma equipe enxuta.

Quanto maior a dependência de mão de obra e quanto mais longo o período de funcionamento, maior tende a ser o desafio de reorganização.

Por isso, transformar essa discussão em uma guerra entre trabalhadores e empresários é um erro.

O trabalhador não pode ser tratado como simples custo de produção. Da mesma forma, a empresa não pode ser tratada como uma estrutura capaz de absorver qualquer aumento de custo sem consequência.

Existe uma equação econômica no meio dessa disputa.

Se o custo adicional puder ser compensado por produtividade, tecnologia e melhor organização do trabalho, a mudança poderá produzir ganhos sociais sem comprometer a capacidade de contratação.

Se não puder, parte dessa conta poderá aparecer nos preços, nos investimentos, no número de vagas ou na própria sobrevivência de negócios com margens muito apertadas.

O desafio, portanto, não é escolher entre qualidade de vida e atividade econômica.

É construir uma mudança capaz de melhorar a vida de quem trabalha sem tornar mais difícil, justamente para quem está na ponta, a decisão de contratar.

Porque uma política trabalhista pode ser socialmente desejável e, ao mesmo tempo, exigir uma engenharia econômica cuidadosa.

O ponto central não é impedir a mudança.

É garantir que o custo da mudança não seja tão alto a ponto de reduzir as oportunidades que o próprio trabalhador precisa encontrar no mercado.


O empresário está recebendo várias contas ao mesmo tempo

É aqui que as peças começam a se encaixar.

Uma empresa pode enfrentar:

- juros elevados;
- consumidores endividados;
- queda ou mudança nas vendas;
- concorrência do comércio eletrônico;
- aumento de custos operacionais;
- necessidade de adaptação tecnológica;
- novas obrigações tributárias;
- maior custo por hora trabalhada;
- dificuldade de acesso ao crédito;
- concorrência internacional.

Nenhum desses fatores, isoladamente, é suficiente para explicar a quebra de uma empresa.

Mas uma empresa pode não conseguir absorver todos eles ao mesmo tempo.

É justamente por isso que os recentes pedidos de recuperação judicial e os casos de falência precisam ser analisados com mais cuidado, sem procurar um único culpado para problemas que, em muitos casos, foram construídos ao longo de anos.

A Casas Bahia não entrou em recuperação judicial simplesmente porque a Reforma Tributária começou.

O Grupo Gennius, controlador de redes como Habib's e Ragazzo, não chegou a esse ponto simplesmente por causa da discussão sobre a escala 6x1.

E a Oi não teve a falência decretada por causa dos juros praticados atualmente.

São empresas com histórias, dívidas, decisões administrativas e desafios específicos. Algumas acumulam problemas há anos, enfrentando transformações profundas em seus mercados, mudanças no comportamento dos consumidores, concorrência, endividamento e dificuldades de financiamento.

Seria, portanto, economicamente simplista colocar toda a responsabilidade sobre as mudanças que estão acontecendo agora.

Mas também seria simplista ignorar o ambiente em que essas empresas precisam sobreviver.

Uma companhia altamente endividada pode até suportar juros elevados durante algum tempo. Pode também absorver uma mudança tributária. Pode reorganizar sua operação diante de uma nova legislação trabalhista.

O problema surge quando essas pressões se acumulam.

Crédito caro, consumo enfraquecido, custos maiores, necessidade de investimento, concorrência mais agressiva e mudanças regulatórias podem reduzir simultaneamente a margem de manobra de uma empresa.

E, quando a margem desaparece, decisões que antes seriam administráveis passam a se tornar decisivas: fechar uma unidade, demitir, vender ativos, adiar investimentos ou buscar recuperação judicial.

É justamente aí que está a questão econômica mais importante.

Não se trata de perguntar se a Reforma Tributária quebra empresas.

Não se trata de perguntar se o fim da escala 6x1 quebra empresas.

A pergunta é mais difícil:

qual é a capacidade de uma economia que já enfrenta juros elevados, endividamento, baixa produtividade e problemas de competitividade para absorver novas mudanças sem aumentar a quantidade de empresas que não conseguem sobreviver?

Essa é a discussão que precisa ser feita antes que os efeitos apareçam apenas nas manchetes de falências, demissões e lojas fechadas.

O perigo que não aparece nas estatísticas

Existe ainda uma consequência econômica que raramente vira manchete, mas pode ser uma das mais importantes: o investimento que simplesmente deixa de acontecer.

Uma fábrica que fecha gera notícia.

Uma loja que demite gera notícia.

Uma empresa que entra em recuperação judicial gera notícia.

Mas existe um movimento muito mais silencioso: o empresário que decide construir sua próxima fábrica no Paraguai, abrir uma unidade no Uruguai ou simplesmente adiar um investimento que seria feito no Brasil.

Não há demissão para registrar.

Não há fábrica fechada.

Não há manchete.

Existe apenas um emprego que nunca foi criado, um investimento que nunca entrou, uma cadeia de fornecedores que nunca se formou e uma arrecadação que nunca chegou aos cofres públicos.

É por isso que competitividade precisa estar no centro da discussão econômica brasileira.

Empresas não escolhem onde investir olhando apenas para a carga tributária. Elas calculam o custo completo de produzir e operar em determinado país: energia, logística, mão de obra, infraestrutura, produtividade, burocracia, acesso ao crédito, segurança jurídica e, principalmente, previsibilidade das regras.

O empresário precisa saber quanto custa produzir hoje e ter alguma segurança sobre quanto custará produzir amanhã.

Quando esse cálculo se torna excessivamente caro ou imprevisível, o capital procura alternativas.

E o mundo oferece alternativas.

Países vizinhos podem apresentar custos menores, incentivos diferentes ou um ambiente considerado mais simples para determinados tipos de operação. Isso não significa que o Brasil esteja diante de uma fuga generalizada de empresas. O problema é mais silencioso e, justamente por isso, mais difícil de medir: decisões futuras de investimento podem começar a acontecer fora do país.

Esse tipo de perda não aparece imediatamente nas estatísticas de desemprego.

Ela aparece anos depois, quando uma região percebe que uma indústria esperada nunca chegou, quando uma cadeia de fornecedores não se desenvolveu ou quando o crescimento econômico fica abaixo do potencial.

Para um país que precisa crescer para aumentar a arrecadação, gerar empregos e reduzir o peso da dívida em relação ao tamanho da economia, esse é um problema que não pode ser ignorado.

Porque competitividade não significa apenas convencer uma empresa a permanecer no Brasil.

Significa fazer com que, quando ela decidir onde colocar o próximo bilhão de reais, o Brasil seja uma das primeiras opções — e não apenas uma das alternativas.


O Brasil está diante de uma escolha econômica

O cenário atual ainda não permite falar em colapso da economia brasileira. Seria exagero.

O mercado de trabalho continua mostrando força. O país segue criando empregos, a arrecadação cresce e a atividade econômica continua funcionando.

Mas olhar apenas para esses indicadores e concluir que está tudo bem também seria um erro.

Ao mesmo tempo em que a economia mantém capacidade de gerar empregos, o varejo elimina postos de trabalho. Grandes empresas fecham lojas, reduzem estruturas e recorrem à recuperação judicial. A Oi teve a falência decretada após anos de dificuldades financeiras. Famílias convivem com crédito caro, enquanto a dívida pública continua avançando e o custo dos juros permanece elevado.

E não é apenas uma questão de empresas endividadas.

O setor produtivo está sendo pressionado por diferentes frentes ao mesmo tempo: juros altos, mudanças no comportamento do consumidor, necessidade de adaptação à Reforma Tributária e a possibilidade de uma transformação importante na jornada de trabalho com o fim da escala 6x1.

Nenhum desses fatores, isoladamente, significa que o Brasil esteja caminhando para uma crise. O problema está na combinação.

Uma economia pode continuar crescendo e, ainda assim, apresentar sinais de perda de fôlego em determinados setores. Pode gerar empregos e, ao mesmo tempo, dificultar novos investimentos. Pode aumentar a arrecadação e, ainda assim, não conseguir controlar o crescimento da dívida.

É justamente essa contradição que precisa ser observada.

O Brasil não está diante de uma economia parada. Está diante de uma economia que ainda funciona, mas que enfrenta custos elevados para continuar funcionando.

E essa diferença é importante.

Evitar uma crise é uma coisa. Construir uma economia capaz de crescer de forma consistente, atrair investimentos, aumentar a produtividade, gerar empregos de melhor qualidade e permitir que empresas sejam competitivas é outra completamente diferente.

É nesse ponto que os próximos anos podem ser decisivos.

A questão não é apenas saber se o Brasil conseguirá evitar uma recessão. É saber se conseguirá criar condições para crescer mais sem depender permanentemente de juros elevados, aumento da arrecadação e expansão da dívida.

Porque uma economia pode não estar em crise e, ainda assim, estar desperdiçando oportunidades de crescimento.


O que precisa ser discutido de verdade

A discussão econômica brasileira não deveria se resumir à velha disputa entre aumentar ou diminuir impostos, assim como não deveria ser transformada em uma guerra ideológica entre trabalhadores e empresários. O problema é muito maior e envolve questões que determinam diretamente a capacidade do país de crescer: produtividade, qualidade do gasto público, trajetória da dívida, custo do crédito, competitividade, segurança jurídica e capacidade de atrair investimentos.

O Brasil precisa discutir por que, em determinadas situações, uma empresa brasileira considera mais vantajoso produzir em outro país do que ampliar sua operação aqui. Precisa entender por que determinados investimentos deixam de acontecer, por que o custo de contratar pode se tornar um obstáculo para pequenos negócios e por que empresas e trabalhadores continuam convivendo com um ambiente econômico marcado por incertezas.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o setor privado também tem responsabilidades. Uma empresa que administra mal sua dívida, toma decisões equivocadas, não acompanha mudanças tecnológicas ou perde competitividade não pode atribuir todos os seus problemas ao governo ou à economia. Gestão, produtividade e capacidade de adaptação continuam sendo determinantes para a sobrevivência de qualquer negócio.

Mas a responsabilidade também precisa ser cobrada do Estado. Não é razoável esperar que empresas invistam mais, contratem mais e sejam mais produtivas enquanto enfrentam crédito caro, burocracia, insegurança regulatória e um ambiente em que as despesas públicas continuam pressionando as contas e o custo do financiamento.

É preciso, portanto, abandonar a ideia de que trabalhador e empresário estão necessariamente em lados opostos. Uma economia saudável precisa dos dois. O trabalhador precisa de melhores salários, mais qualidade de vida e oportunidades. A empresa precisa de condições para produzir, investir e contratar. E o Estado precisa criar um ambiente em que essas duas coisas possam acontecer de forma sustentável.

O desafio é encontrar esse equilíbrio sem transformar cada nova política em um custo que alguém será obrigado a absorver.

Porque, no fim, quando a economia perde competitividade, ninguém vence: o trabalhador perde oportunidades, a empresa perde capacidade de investir e o Estado perde arrecadação.


A conta chega — e alguém sempre paga

Existe uma verdade econômica que não muda conforme o governo, o partido ou a ideologia: contas não desaparecem. Quando o Estado gasta mais do que consegue financiar de forma sustentável, a conta precisa ser paga por alguém — e, em algum momento, ela chega à sociedade na forma de impostos mais altos, juros elevados, inflação, menor investimento ou crescimento econômico mais fraco. Em determinadas circunstâncias, também pode aparecer na forma de empregos que deixam de ser criados ou empresas que desistem de investir.

O Brasil ainda tem espaço para escolher outro caminho, mas esse espaço não é infinito. Controlar o crescimento estrutural das despesas, melhorar a qualidade do gasto público, estabilizar a trajetória da dívida e criar condições para uma redução sustentável dos juros poderia produzir um efeito que vai muito além das contas do governo. Crédito mais barato tende a estimular o consumo e o investimento; consumo maior significa mais vendas; vendas maiores melhoram o caixa das empresas; e empresas com maior capacidade financeira conseguem investir, contratar e aumentar a produtividade.

O caminho contrário também é possível. Se a dívida continuar crescendo, se as despesas avançarem acima da capacidade de expansão da economia e se o crédito permanecer caro, a pressão sobre empresas e famílias continuará. Nesse cenário, uma empresa endividada terá mais dificuldade para renovar suas dívidas, o consumidor terá menos espaço para assumir novas compras e o empresário terá menos segurança para investir.

É nesse ambiente que as demais mudanças em curso precisam ser analisadas. A Reforma Tributária pode simplificar um sistema historicamente complexo e, no longo prazo, melhorar o ambiente de negócios, mas não resolverá sozinha o desequilíbrio fiscal do país. Da mesma forma, o fim da escala 6x1 pode representar um avanço nas condições de trabalho e na qualidade de vida, mas exigirá adaptação das empresas e poderá elevar o custo da hora trabalhada em setores intensivos em mão de obra.

Aumentar a arrecadação também pode gerar mais receita para o governo, mas arrecadar mais não significa, por si só, resolver o problema fiscal. Se as despesas continuarem crescendo em ritmo elevado, novas receitas podem apenas acompanhar uma estrutura de gastos que continua se expandindo.

É justamente aí que está o ponto mais delicado do debate: não se trata apenas de quanto o Estado consegue arrecadar, mas de quanto a economia brasileira consegue sustentar. Um país pode aumentar impostos, ampliar receitas e ainda assim continuar acumulando dívida se não conseguir controlar a trajetória das despesas.

No fim, responsabilidade fiscal não é apenas uma discussão sobre números em uma planilha. É uma discussão sobre o preço do dinheiro, a capacidade de investimento das empresas, o poder de compra das famílias e a quantidade de oportunidades que a economia será capaz de criar.

Porque quando o Estado perde espaço para gastar, o mercado não deixa de funcionar. Ele apenas começa a funcionar sob condições mais caras — e, nesse ambiente, quem normalmente paga a diferença é toda a sociedade.

A pergunta que fica

O debate econômico brasileiro, no fundo, não é apenas sobre Casas Bahia, Habib's, Oi, Reforma Tributária ou escala 6x1. É sobre qual economia o Brasil quer construir nos próximos anos.

Uma economia capaz de criar condições para que empresas invistam, trabalhadores ganhem mais e consumam mais e o Estado consiga financiar políticas públicas de forma sustentável, sem depender permanentemente do aumento da dívida? Ou uma economia em que o setor produtivo opere cada vez mais próximo do limite enquanto o Estado amplia sua arrecadação para sustentar despesas que continuam crescendo?

O Brasil ainda não está diante de uma escolha entre crescimento e recessão. A escolha é anterior: criar as condições para crescer mais ou continuar administrando as consequências de um crescimento insuficiente.

Porque uma loja que fecha é visível. Uma empresa que demite também. Uma fábrica que encerra as atividades aparece nas estatísticas. Mas existe um impacto muito mais silencioso e, talvez, mais preocupante: o investimento que não aconteceu, a fábrica que nunca foi construída, o emprego que nunca chegou a existir e o empresário que decidiu colocar seu próximo real em outro país.

Essas perdas não aparecem imediatamente nas manchetes. Não há uma placa anunciando que determinado emprego deixou de ser criado ou que uma empresa desistiu de investir. Mas elas têm consequências sobre a produtividade, a renda, a arrecadação e o crescimento do país.

É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre números, balanços empresariais ou decisões tomadas em Brasília. Passa a ser sobre o ambiente econômico que o Brasil está construindo e sobre a capacidade do país de transformar crescimento em investimento, investimento em produtividade e produtividade em empregos e renda.

No fim, a pergunta não é apenas quanto o governo arrecada, quanto as empresas pagam ou quanto custa contratar.

A pergunta é mais simples — e muito mais importante:

o Brasil está criando condições para que seja mais vantajoso produzir, investir, contratar e crescer aqui, ou está tornando cada vez mais difícil convencer quem tem capital a apostar no país?

A resposta a essa pergunta ajudará a determinar não apenas o tamanho da dívida pública ou o futuro das empresas brasileiras, mas também quantos empregos serão criados, quanto as famílias poderão consumir e qual será o ritmo de crescimento da economia nos próximos anos.

Porque o custo de uma decisão econômica ruim não aparece apenas quando uma empresa fecha. Às vezes, ele aparece anos depois, quando percebemos que aquilo que poderia ter sido construído simplesmente nunca aconteceu.


Da redação: Vale FM / R. Simas







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