Operação autorizada por Flávio Dino cumpre quatro mandados em São Paulo e no Distrito Federal; investigação cita negociações de até R$ 2 milhões
A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira (14) a terceira fase da Operação Transparência, que investiga uma suposta estrutura voltada à comercialização de influência sobre processos em tribunais superiores. Um dos principais alvos é o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao todo, são cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao parlamentar e à advogada Valéria Rodrigues Linhares, apontada como sua esposa, em São Paulo e no Distrito Federal. A investigação apura suspeitas de tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Na decisão que autorizou as buscas, Dino apontou indícios de que Cezinha teria utilizado a posição parlamentar para transmitir a terceiros a percepção de que possuía influência sobre ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Segundo a investigação, o deputado, que não é advogado, teria atuado em conjunto com advogadas na tentativa de obter decisões favoráveis em processos judiciais.
Mensagens analisadas pela PF indicariam que Cezinha relatava contatos com ministros e mencionava expressões como “já falei” e “despachei sim”. Entre os ministros citados nas conversas estão Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes.
A PF identificou ainda ao menos três processos do STF que passaram a ser analisados sob essa perspectiva. Em um deles, segundo a investigação, havia previsão de pagamento de R$ 2 milhões caso determinadas condições fossem alcançadas.
Em outro caso, relacionado à defesa de uma prefeita do Ceará, um contrato previa R$ 500 mil mediante resultado favorável. A investigação também cita outro processo no qual os valores poderiam chegar a R$ 2 milhões com a inclusão de aditivos.
Além de Cezinha, a investigação envolve Valéria Rodrigues Linhares e Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, que já havia sido alvo de diligências anteriores.
Segundo a PF, Tuca teria atuado na captação de clientes e na elaboração de memoriais e outros documentos jurídicos. Valéria, por sua vez, teria participado da elaboração, revisão e assinatura de contratos de prestação de serviços e cessão de créditos.
A suspeita dos investigadores é que Cezinha seria responsável pela interlocução política com magistrados, enquanto as advogadas atuariam na parte jurídica e contratual.
Um dos elementos incorporados à investigação envolve R$ 510 mil em dinheiro vivo apreendidos com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no dia 25 de agosto.
Segundo a decisão de Dino, a PF considera que o transporte físico de grandes quantias poderia dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos. A defesa da advogada afirmou anteriormente que o dinheiro estaria relacionado a pagamentos por serviços advocatícios.
Dino também assumiu a relatoria do processo relacionado à apreensão do dinheiro.
Um ponto destacado pelo ministro Flávio Dino é que os magistrados mencionados nas conversas não são alvos da investigação.
Segundo a decisão, não foram encontrados elementos que indiquem que ministros ou outros integrantes do Judiciário tenham solicitado, recebido ou aceitado vantagens indevidas.
O ministro também ressaltou que reuniões entre parlamentares, advogados e magistrados fazem parte da rotina institucional e, isoladamente, não configuram irregularidade. O foco da apuração está na possível atuação de pessoas que teriam oferecido ou negociado uma suposta influência sobre decisões judiciais.
A Polícia Federal havia solicitado autorização para realizar buscas também no gabinete de Cezinha na Câmara dos Deputados. O pedido, porém, foi negado por Flávio Dino.
Segundo o ministro, não havia elementos concretos suficientes para demonstrar que o espaço do Legislativo era utilizado para a prática dos crimes investigados ou para ocultar provas.
Cezinha de Madureira negou ter cometido irregularidades e afirmou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. A defesa também questionou a realização da operação durante o período eleitoral e pediu que a investigação seja conduzida com garantia de contraditório e amplo acesso aos elementos do processo.
A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, iniciada em dezembro de 2025 para apurar irregularidades relacionadas à destinação de emendas parlamentares. Nesta terceira fase, a apuração passou a alcançar também suspeitas de negociação de influência em processos nos tribunais superiores.
Redação: Vale FM









