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24/09/2026 09:22

A espécie é invasora, pode chegar a 300kg e é aproveitada na Europa e na Ásia.

O Brasil enfrenta uma situação que reúne dois problemas aparentemente distintos: de um lado, a expansão do javali, espécie exótica invasora que provoca prejuízos ambientais e econômicos em diferentes regiões do país; de outro, a impossibilidade de aproveitar como alimento a carne dos animais abatidos durante as ações de controle. Enquanto no Brasil a legislação sanitária e ambiental impede a distribuição e a comercialização dos produtos obtidos desses animais em liberdade, países da Europa e da Ásia possuem sistemas que permitem o aproveitamento da carne de javali, desde que submetida a controles veterinários e sanitários.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) informa que o javali, identificado cientificamente como Sus scrofa, é originário da Europa, da Ásia e do norte da África e foi introduzido no Brasil a partir da década de 1960, principalmente com a finalidade de criação e consumo de carne na região Sul. O órgão também aponta que a espécie está entre as cem piores espécies exóticas invasoras do mundo, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza.

A expansão ocorreu tanto pela introdução de animais para criação quanto pela fuga e dispersão de exemplares que passaram a viver livremente. Registros ambientais também apontam que, na década de 1990, houve importação de javalis puros destinados a criadouros de São Paulo (SP) e do Rio Grande do Sul (RS), e que o escape de animais contribuiu para a disseminação da espécie pelo território brasileiro.

O problema é que o javali possui grande capacidade de adaptação, reprodução elevada e poucos predadores naturais capazes de controlar suas populações. Segundo o IBAMA, a presença dele está associada a danos à vegetação, predação de ovos e filhotes de espécies nativas, transmissão de doenças e processos de erosão e assoreamento. Atualmente, há registros da espécie em pelo menos 15 unidades da Federação, entre elas a Bahia (BA).


Javalis mortos enfileirados. Imagem: Ilustrativa Gerada por IA

Diante da expansão da população, o controle do javali foi autorizado pela instituição em 2013, seguindo regras específicas de manejo. O animal capturado durante essas ações deve ser abatido no próprio local, já que o transporte de animais vivos é proibido. O manual oficial do órgão também determina que não sejam distribuídos ou comercializados produtos e subprodutos provenientes do manejo de javalis que vivem em liberdade.

E é justamente nesse ponto que surge uma discussão sobre o aproveitamento da carne. Em vez de chegar ao consumidor, a orientação oficial é dar uma destinação adequada à carcaça, como enterramento ou compostagem, conforme as regras e orientações dos órgãos responsáveis pela sanidade animal de cada estado. O IBAMA também não recomenda o consumo desses animais devido aos riscos de transmissão de doenças.

A preocupação sanitária não é exclusiva do Brasil. O javali pode carregar agentes causadores de doenças que também afetam os seres humanos, e a carne de animais abatidos sem controle veterinário pode apresentar riscos. Entre eles está a triquinelose, doença causada por parasitas do gênero Trichinella. Por isso, em países onde a carne de javali é consumida, existem mecanismos de inspeção e controle para reduzir esses riscos.

Na Espanha, por exemplo, a carne de caça maior silvestre pode ser destinada ao consumo humano quando o animal passa pelas inspeções previstas pelas autoridades sanitárias. A Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição estabelece procedimentos de inspeção post mortem e marcação sanitária para que a carne seja considerada apta ao consumo.

Na Itália, o javali também faz parte da realidade alimentar e da atividade de caça. O Ministério da Saúde italiano registra casos de triquinelose relacionados ao consumo de carne de javali proveniente de caça sem controle veterinário, ao mesmo tempo em que a legislação europeia prevê controles específicos para animais destinados ao mercado. O próprio governo italiano informa que a carne de javali destinada ao consumo precisa ser submetida a controles para reduzir os riscos sanitários.

Na Polônia, o consumo também faz parte da tradição gastronômica. O Ministério da Agricultura polonês mantém em seu registro oficial produtos tradicionais elaborados com carne de javali e descreve a carne como geralmente magra e um pouco mais firme que a de animais criados em sistema doméstico.

O Japão é outro exemplo. Dados oficiais citados em estudo científico publicado em 2025 mostram que, somente em 2023, foram processados em estabelecimentos licenciados japoneses 39.918 javalis, resultando em aproximadamente 511 toneladas de carne de javali destinadas ao consumo. O país possui estabelecimentos específicos licenciados para o processamento da carne de animais silvestres e regras de higiene que acompanham o produto desde o abate até a comercialização.

Portugal também possui regras para o aproveitamento da carne de caça. A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária determina que javalis destinados à comercialização sejam encaminhados a estabelecimentos de manipulação de caça selvagem e submetidos à inspeção post mortem, incluindo testes laboratoriais para detecção de Trichinella em determinadas áreas de risco.

Além da possibilidade de aproveitamento, a composição da carne ajuda a explicar por que o produto é utilizado em diferentes países. Estudos científicos apontam que a carne de javali tende a apresentar menos gordura e quantidade semelhante ou superior de proteína em comparação com a carne suína convencional.


Caçador brasileiro mostra um javali caçado por ele no nordeste de Minas Gerais (MG). Foto: Reginaldo

Um estudo publicado em 2024 comparou carne de javalis abatidos em ambiente selvagem com carne de suínos domésticos criados em diferentes sistemas. Os pesquisadores encontraram menor quantidade de gordura na carne de javali, mantendo níveis semelhantes de proteína. Também foram observadas diferenças favoráveis na composição dos ácidos graxos, com maior proporção de gorduras poli-insaturadas e menor proporção de gorduras saturadas na carne de javali analisada.

Outro levantamento científico apresentou, como valores médios de referência, aproximadamente 22,2 gramas de proteína e 4 gramas de gordura em 100 gramas de carne de javali, contra 18,6 gramas de proteína e 23,9 gramas de gordura em 100 gramas de carne suína nos dados comparados pelo estudo. Esses números variam conforme o animal, alimentação, idade, músculo analisado e método de criação ou abate, mas ajudam a demonstrar a característica mais magra da carne de javali.

Revisões científicas também descrevem a carne de javali como mais escura, mais magra e com menor quantidade de gordura intramuscular que a carne de porco doméstico. Por possuir musculatura mais desenvolvida e diferente composição das fibras musculares, a carne pode ser um pouco mais firme e exigir técnicas específicas de preparo para alcançar maior maciez.

Isso não significa, entretanto, que a carne de javali abatido no campo possa simplesmente ser levada para casa, preparada e distribuída. A diferença fundamental está no controle sanitário. Um animal selvagem não passa pelas mesmas condições de criação, inspeção e acompanhamento de um suíno destinado à cadeia formal de produção. Por isso, a discussão sobre aproveitamento da carne necessariamente envolve criação de protocolos para inspeção, testes laboratoriais, processamento, armazenamento, transporte e rastreabilidade.

No Brasil, no entanto, a discussão ganha uma dimensão adicional porque o javali não é apenas um animal de caça: trata-se de uma espécie exótica invasora que o próprio poder público precisa controlar. O país precisa abater animais para reduzir os impactos ambientais e econômicos provocados pela espécie, mas, pelas regras atuais, a carne resultante desse manejo não pode entrar em uma cadeia regular de distribuição e comercialização.


Caçador brasileiro mostra um javali caçado por ele no nordeste de Minas Gerais (MG) com o auxílio de cães de caça. Foto: Reginaldo

Em um momento de pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras, surge então uma questão que poderia ser discutida por autoridades ambientais, sanitárias e agropecuárias: seria possível criar um sistema seguro de aproveitamento da carne dos javalis abatidos legalmente, em vez de simplesmente determinar a inutilização das carcaças?

A discussão não significa liberar o consumo de animais abatidos sem fiscalização. Uma eventual mudança exigiria justamente o caminho contrário: controle rigoroso, inspeção veterinária, exames para doenças e parasitas, processamento em unidades autorizadas e regras claras para transporte, armazenamento e comercialização.

A possibilidade também ganha relevância diante do comportamento recente dos preços dos alimentos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o grupo Alimentação e Bebidas acumulou alta de 11,64% em 2022 e 7,69% em 2024. Somente as carnes tiveram alta de 20,84% em 2024, contribuindo de forma significativa para a inflação da alimentação no domicílio naquele ano. E, diante da existência de uma população de animais que já precisa ser controlada e de países que desenvolveram mecanismos para transformar parte desse recurso em alimento, o aproveitamento regulamentado poderia ser objeto de estudos para o Brasil.

Em vez de enxergar o javali apenas como um problema ambiental ou sanitário, uma eventual política pública poderia avaliar se existe uma forma segura de transformar parte dos animais abatidos em uma fonte adicional de proteína, especialmente por se tratar de uma carne naturalmente mais magra e rica em proteínas. Isso poderia envolver desde a comercialização regular até programas específicos de aproveitamento social, caso estudos sanitários e econômicos comprovassem a viabilidade.

A ideia, portanto, não seria simplesmente permitir que a população consuma carne de javali abatida de qualquer maneira. O modelo observado em países como Espanha, Itália, Japão, Polônia e Portugal mostra que o caminho possível passa pelo controle sanitário, pela inspeção e pela rastreabilidade.

A discussão sobre uma possível mudança, portanto, envolve duas questões diferentes que precisariam caminhar juntas: o controle de uma espécie invasora que já ocupa grande parte do território nacional e a criação de condições sanitárias capazes de transformar um animal que hoje é tratado como problema ambiental em uma possível fonte legal e fiscalizada de alimento.



Dan Oliveira/ CSFM

- Referências de pesquisa: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Manual de boas práticas para o controle de javali e página oficial sobre manejo e controle da espécie; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, séries do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo; estudos científicos publicados em Italian Journal of Food Science, Foods e Sustainability sobre composição e qualidade nutricional da carne de javali; Ministério da Agricultura da Polônia; Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição; Ministério da Saúde da Itália; Direção-Geral de Alimentação e Veterinária de Portugal; e dados oficiais japoneses sobre processamento de carne de caça.







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